Dois vídeos e um texto sobre violência obstétrica

Em primeiro lugar, o texto:
Documentário A Dor Além do Parto denuncia que maioria dos erros médicos estão ligados à obstetrícia.

“Violência obstétrica é qualquer ato ou intervenção praticado sem o consentimento explícito e informado da mulher grávida, parturiente ou que deu à luz recentemente que desrespeita sua integridade física, mental, seus sentimentos, opções e preferências.”

Em segundo lugar, os vídeos:

A Dor Além do Parto
Sinopse: A violência obstétrica é uma grave violação aos direitos mais básicos da mulher parturiente. O objetivo primordial do documentário é servir como veículo de informação e denúncia, e também como instrumento de conscientização tanto dos profissionais do Direito e da Saúde quanto das próprias mulheres que pretendem ser mães. Evidencia-se a realidade do parto e nascimento no Brasil através de depoimentos de mulheres vítimas desse tipo de obstétrica e discute-se as implicações jurídicas que o assunto possui, além das consequências para a vida da mãe e do bebê. (Retirado do vídeo com modificações minhas.)

Violência Obstétrica – A Voz das Brasileiras
Um documentário produzido a partir de depoimentos reais de mulheres, gravados em suas próprias casas com webcam, celular ou máquina fotográfica.

Fragmento do livro “A Morte de Ivan Ilitch”, de Lev Tolstói

Citar

Referência: TOLSTÓI, Lev. A Morte de Ivan Ilitch. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009, p. 37-39.

[a esposa] exigiu que fosse consultar um médico famoso.

Ele foi. Tudo se passou como esperava, isto é, como sempre acontece nessas ocasiões: a espera, um ar importante e artificial, doutoral, que já conhecia, aquele mesmo que ele sabia que tinha no tribunal, as batidas no paciente, a auscultação, as perguntas que exigiam respostas formuladas de antemão e, ao que parece, desnecessárias, a expressão significativa, que sugeria o seguinte: basta que você se submeta a nós, e havemos de arranjar tudo, sabemos sem nenhuma dúvida como arranjá-lo, temos um padrão único para todas as pessoas. Tudo era exatamente igual ao que sucedia no tribunal. Assim, como ele assumia certa expressão para falar com os acusados, o médico famoso também assumia determinada expressão.

O doutor dizia: isto e mais aquilo indicam que o senhor tem no seu interior isto e mais aquilo; mas se isto não se confirmar pela pesquisa disto e de mais aquilo, teremos que supor no senhor isto e mais aquilo. E supondo-se que tenha isto e mais aquilo, então… etc. Somente uma questão tinha importância para Ivan Ilitch: a sua condição apresentava perigo? Mas o doutor não dava importância a esta questão inconveniente. Do seu ponto de vista, ela era ociosa e não merecia exame; existia somente uma avaliação de possibilidades entre o rim móvel, o catarro crônico e uma afecção no ceco. Não se tratava da vida de Ivan Ilitch, o que existia era uma discussão entre o rim móvel e a afecção no ceco. E o doutor resolveu esta discussão brilhantemente, na presença de Ivan Ilitch, a favor do ceco, fazendo também a observação de que o exame de urina poderia fornecer novos indícios, e que então o caso seria reexaminado. Tudo isto era exatamente o mesmo que o próprio Ivan Ilitch fizera mil vezes, com o mesmo brilhantismo, em relação a um acusado. De maneira igualmente brilhante, o doutor fez o seu resumo e, com ar triunfante, alegre até, lançou um olhar por cima dos óculos, para o acusado. Ivan Ilitch concluiu desse resumo que as coisas iam mal, embora isto fosse indiferente ao médico e talvez a todos os demais. E esta conclusão impressionou Ivan Ilitch morbidamente, despertando nele um sentimento de grande comiseração por si mesmo e de profundo rancor contra aquele médico, tão indiferente a uma questão de tamanha importância.

Mas, sempre calado, levantou-se, pôs o dinheiro sobre a mesa, suspirou, e só então disse:

— Nós, doentes, provavelmente fazemos ao senhor muitas vezes perguntas inconvenientes. Num sentido genérico, é uma doença perigosa ou não?…

O médico olhou-o com severidade, com um olho só, por trás dos óculos, como se dissesse: acusado, se o senhor não se mantiver nos limites das perguntas que lhe são apresentadas, serei obrigado a tomar providências para o seu afastamento da sala das sessões.

— Eu já disse ao senhor aquilo que considerei necessário e conveniente — disse o doutor. — O exame indicará o resto. — E o doutor inclinou-se, despedindo-se.

Ivan Ilitch saiu devagar, sentou-se merencório no trenó e foi para casa. No decorrer de todo o percurso, ele reexaminava tudo o que dissera o médico, esforçando-se por traduzir para uma linguagem simples todos aqueles termos científicos confusos e ler neles uma resposta ao seguinte: estou muito mal ou, por enquanto, não é grave? Tinha a impressão de que o sentido das palavras do médico era que estava muito doente. Nas ruas, tudo lhe pareceu triste. Estavam tristes os cocheiros, as casas, os transeuntes, as vendas. E essa dor, uma dor surda, abafada, que não cessava um segundo sequer, parecia receber, em consequência das palavras imprecisas do médico, um significado novo, mais sério. Ivan Ilitch prestava agora atenção a ela com um sentimento penoso diferente.

“Esquizofrenia: risco de perigo ou preconceito?” – Carta Capital

Luís Fernando Tófoli, médico e professor de Psiquiatria da UNICAMP, alerta para que a trágica morte de Eduardo Coutinho não sirva para estigmatizar (ainda mais) os pacientes portadores de esquizofrenia.

“A precoce e inesperada partida do documentarista Eduardo Coutinho não deve justificar o aumento do estigma aos portadores de esquizofrenia.”

“Esquizofrênico registra em livro a experiência de enlouquecer”

Jorge Cândido de Assis, 49, no departamento de psiquiatria da Unifesp, em São Paulo.

“Ex-aluno de física e de filosofia da USP, Jorge Cândido de Assis carrega no corpo as marcas da esquizofrenia. Aos 21, durante uma crise, ele se jogou contra um trem do metrô e perdeu uma perna. Hoje, aos 49 anos, cinco crises psicóticas depois, ele dá aulas sobre estigma em um curso de psiquiatria e acaba de lançar um livro no qual descreve a experiência de enlouquecer. Entre a Razão e a Ilusão (Artmed Editora) foi escrito em parceria com o psiquiatra Rodrigo Bressan e com a terapeuta Cecilia Cruz Villares, da Unifesp. Leia o depoimento dele.”

Destaco os seguintes trechos:

“Todo esse estresse me levou à quinta crise. Ela foi rapidamente controlada, mas é um processo difícil retomar a rotina anterior, ressignificar as coisas para que a vida faça sentido. Depois das crises, tenho que renascer das cinzas. Muitas pessoas desistem. É preciso uma grande dose de esforço para reconstruir a vida. A medicação ajuda, mas não é garantia. (…) O estigma também é muito prejudicial. Ser apontado como louco ou ser desacreditado só piora. (…) Eu não sou só a doença, e a doença não me define.”

Eis o link para a matéria da Folha de São Paulo.

Sobre o projeto de “cura gay”

Eis um excelente guest post para o blog Escreva Lola Escreva escrito por uma querida amiga, a Amana Mattos, que é professora de Psicologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em pauta, a aprovação do assim apelidado projeto de cura gay na Comissão de Direitos Humanos da Câmara no última dia 18. Eis o texto: Não existe cura para o que não é doença.

Recomendo também outros dois ótimos textos sobre o assunto, escritos pelo Felipe Stephan, mestrando no Instituto de Medicina Social da UERJ e autor do blog Psicologia dos Psicólogos (do qual me tornei leitor cativo): Homossexualidade: como curar o que não é doença? – Parte 1 e Parte 2.

Psicologia: Abordagem Científica vs. Fundamentalista

O Hospital Colônia de Barbacena: holocausto brasileiro

“Em Barbacena, cidade do Holocausto brasileiro, mais de 60 mil pessoas perderam a vida no Hospital Colônia. (…) As milhares de vítimas travestidas de pacientes psiquiátricos – já que mais de 70% dos internados não sofria de doença mental –, sucumbiam de fome, frio, diarreia, pneumonia, maus-tratos, abandono e tortura. (…) Criado pelo governo estadual, em 1903, para oferecer ‘assistência aos alienados de Minas’, até então atendidos nos porões da Santa Casa, o Hospital Colônia tinha inicialmente capacidade para 200 leitos, mas atingiu a marca de 5 mil pacientes em 1961, tornando-se endereço de um massacre. A instituição, transformada em um dos maiores hospícios do país, começou a inchar na década de 30, mas foi durante a ditadura militar que os conceitos médicos simplesmente desapareceram. Para lá eram enviados desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive doentes mentais.”

Excelente matéria publicada em novembro de 2011, no jornal Tribuna de Minas, sobre a chocante realidade do antigo Hospital Colônia de Barbacena: Holocausto brasileiro: 50 anos sem punição.

“A ‘epidemia’ do crack: o cultivo científico da ignorância”

Fantástico artigo de Sylvia Debossan Moretzsohn, jornalista e professora da Universidade Federal Fluminense, para o Observatório da Imprensa em novembro do ano passado, fala de toda mistificação criada em torno do crack. Ela denuncia o processo de demonização desta droga e a consequente construção midiática da figura do dependente químico como uma não-pessoa, um inimigo da sociedade que não goza dos mesmos direitos de todo cidadão. Assim são justificadas as mais violentas ações do Estado contra essas pessoas. Eis o link: O cultivo científico da ignorância.