Palestra: Redefinindo a Comida de Hospital, de Joshna Maharaj (em inglês)

Nesta palestra (em inglês), a chef de cozinha, escritora e ativista Joshna Maharaj defende a necessidade de repensarmos a importância da comida de hospital. Para Maharaj, é preciso investir urgentemente em cardápios de qualidade, que combinem valor nutricional e sabor (que, afinal de contas, não são coisas mutuamente excludentes), para quebrar a fama ruim criada em torno da comida de hospital. Esta deve ser considerada como parte integrante do tratamento, ao lado do repouso e do medicamento.

Palestra: A Morte é um Dia Que Vale a Pena Viver, de Ana Claudia Arantes

Sinopse: Por um lado, aliviar a dor e o sofrimento de doentes e familiares. Por outro, resgatar a biografia de pacientes. Esse é o exercício diário de Ana Claudia Quintana Arantes, médica formada pela FMUSP e especialista em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium e Universidade de Oxford, além de pós-graduada em Intervenções no Luto. Foi a responsável pela implantação das políticas assistenciais de Avaliação da Dor e de Cuidados Paliativos do Hospital Israelita Albert Einstein e é sócia fundadora da Associação Casa do Cuidar. Atualmente, trabalha em consultório e como médica assistente do Hospice do Hospital da Clínicas da FMUSP, na Unidade Jaçanã.

Uma História Severina

Sinopse: Severina é uma mulher que teve a vida alterada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ela estava internada em um hospital do Recife com um feto sem cérebro dentro da barriga, em 20 de outubro de 2004. No dia seguinte, começaria o processo de interrupção da gestação. Nesta mesma data, os ministros derrubaram a liminar que permitia que mulheres como Severina antecipassem o parto quando o bebê fosse incompatível com a vida. Severina, mulher pobre do interior de Pernambuco, deixou o hospital com sua barriga e sua tragédia. E começou uma peregrinação por um Brasil que era feito terra estrangeira: o da Justiça para os analfabetos. Neste mundo de papéis indecifráveis, Severina e seu marido Rosivaldo, lavradores de brócolis em terra emprestada, passaram três meses de idas, vindas e desentendidos até conseguirem autorização judicial. Não era o fim. Severina precisou enfrentar então um outro mundo, não menos inóspito: o da Medicina para os pobres. Quando Severina finalmente venceu, por teimosia, vieram as dores de um parto sem sentido, vividas entre choros de bebês com futuro. E o reconhecimento de um filho que era dela, mas que já vinha morto. A história desta mãe severina termina não no berço, mas em um minúsculo caixão branco.

Solitário Anônimo

Sinopse: Um idoso deitado na cama à espera da morte. No bolso, um bilhete anunciava ser de terras distantes. Não havia documentos ou posses. Seu desejo era simplesmente morrer solitário e anônimo. Esse é o início do documentário que conta a impressionante história de um homem determinado a morrer em paz e da brutal violência exercida pela instituição hospitalar sobre ele.

Dois vídeos e um texto sobre violência obstétrica

Em primeiro lugar, o texto:
Documentário A Dor Além do Parto denuncia que maioria dos erros médicos estão ligados à obstetrícia.

“Violência obstétrica é qualquer ato ou intervenção praticado sem o consentimento explícito e informado da mulher grávida, parturiente ou que deu à luz recentemente que desrespeita sua integridade física, mental, seus sentimentos, opções e preferências.”

Em segundo lugar, os vídeos:

A Dor Além do Parto
Sinopse: A violência obstétrica é uma grave violação aos direitos mais básicos da mulher parturiente. O objetivo primordial do documentário é servir como veículo de informação e denúncia, e também como instrumento de conscientização tanto dos profissionais do Direito e da Saúde quanto das próprias mulheres que pretendem ser mães. Evidencia-se a realidade do parto e nascimento no Brasil através de depoimentos de mulheres vítimas desse tipo de obstétrica e discute-se as implicações jurídicas que o assunto possui, além das consequências para a vida da mãe e do bebê. (Retirado do vídeo com modificações minhas.)

Violência Obstétrica – A Voz das Brasileiras
Um documentário produzido a partir de depoimentos reais de mulheres, gravados em suas próprias casas com webcam, celular ou máquina fotográfica.

Livro: “A Solidão dos Moribundos”, de Norbert Elias

Download do livro A Solidão dos Moribundos (1985), do grande sociólogo alemão Norbert Elias, em formato *.pdf.

Aqui encontramos, sob forma extrema, um dos problemas gerais de nossa época – nossa incapacidade de dar aos moribundos a ajuda e afeição de que precisam quando se despedem dos outros homens, exatamente porque a morte do outro é uma lembrança da nossa própria morte. A visão de uma pessoa moribunda abala as fantasias defensivas que as pessoas constroem como uma muralha contra a ideia de sua própria morte. O amor de si sussurra que elas são imortais: o contato muito próximo com moribundos ameaça o sonho acalentado.

In: ELIAS, Norbert. A Solidão dos Moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 16-17.

Fragmento do livro “A Morte de Ivan Ilitch”, de Lev Tolstói

Citar

Referência: TOLSTÓI, Lev. A Morte de Ivan Ilitch. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009, p. 37-39.

[a esposa] exigiu que fosse consultar um médico famoso.

Ele foi. Tudo se passou como esperava, isto é, como sempre acontece nessas ocasiões: a espera, um ar importante e artificial, doutoral, que já conhecia, aquele mesmo que ele sabia que tinha no tribunal, as batidas no paciente, a auscultação, as perguntas que exigiam respostas formuladas de antemão e, ao que parece, desnecessárias, a expressão significativa, que sugeria o seguinte: basta que você se submeta a nós, e havemos de arranjar tudo, sabemos sem nenhuma dúvida como arranjá-lo, temos um padrão único para todas as pessoas. Tudo era exatamente igual ao que sucedia no tribunal. Assim, como ele assumia certa expressão para falar com os acusados, o médico famoso também assumia determinada expressão.

O doutor dizia: isto e mais aquilo indicam que o senhor tem no seu interior isto e mais aquilo; mas se isto não se confirmar pela pesquisa disto e de mais aquilo, teremos que supor no senhor isto e mais aquilo. E supondo-se que tenha isto e mais aquilo, então… etc. Somente uma questão tinha importância para Ivan Ilitch: a sua condição apresentava perigo? Mas o doutor não dava importância a esta questão inconveniente. Do seu ponto de vista, ela era ociosa e não merecia exame; existia somente uma avaliação de possibilidades entre o rim móvel, o catarro crônico e uma afecção no ceco. Não se tratava da vida de Ivan Ilitch, o que existia era uma discussão entre o rim móvel e a afecção no ceco. E o doutor resolveu esta discussão brilhantemente, na presença de Ivan Ilitch, a favor do ceco, fazendo também a observação de que o exame de urina poderia fornecer novos indícios, e que então o caso seria reexaminado. Tudo isto era exatamente o mesmo que o próprio Ivan Ilitch fizera mil vezes, com o mesmo brilhantismo, em relação a um acusado. De maneira igualmente brilhante, o doutor fez o seu resumo e, com ar triunfante, alegre até, lançou um olhar por cima dos óculos, para o acusado. Ivan Ilitch concluiu desse resumo que as coisas iam mal, embora isto fosse indiferente ao médico e talvez a todos os demais. E esta conclusão impressionou Ivan Ilitch morbidamente, despertando nele um sentimento de grande comiseração por si mesmo e de profundo rancor contra aquele médico, tão indiferente a uma questão de tamanha importância.

Mas, sempre calado, levantou-se, pôs o dinheiro sobre a mesa, suspirou, e só então disse:

— Nós, doentes, provavelmente fazemos ao senhor muitas vezes perguntas inconvenientes. Num sentido genérico, é uma doença perigosa ou não?…

O médico olhou-o com severidade, com um olho só, por trás dos óculos, como se dissesse: acusado, se o senhor não se mantiver nos limites das perguntas que lhe são apresentadas, serei obrigado a tomar providências para o seu afastamento da sala das sessões.

— Eu já disse ao senhor aquilo que considerei necessário e conveniente — disse o doutor. — O exame indicará o resto. — E o doutor inclinou-se, despedindo-se.

Ivan Ilitch saiu devagar, sentou-se merencório no trenó e foi para casa. No decorrer de todo o percurso, ele reexaminava tudo o que dissera o médico, esforçando-se por traduzir para uma linguagem simples todos aqueles termos científicos confusos e ler neles uma resposta ao seguinte: estou muito mal ou, por enquanto, não é grave? Tinha a impressão de que o sentido das palavras do médico era que estava muito doente. Nas ruas, tudo lhe pareceu triste. Estavam tristes os cocheiros, as casas, os transeuntes, as vendas. E essa dor, uma dor surda, abafada, que não cessava um segundo sequer, parecia receber, em consequência das palavras imprecisas do médico, um significado novo, mais sério. Ivan Ilitch prestava agora atenção a ela com um sentimento penoso diferente.