Autointitulada “psicóloga cristã” é julgada por Conselho por prometer “cura gay”

A autointitulada “psicóloga cristã” Marisa Lobo foi julgada nesta sexta-feira, 16/05, pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR). Pesam contra Maria Lobo inúmeras denúncias de que promove terapia de reorientação sexual e dissemina homofobia, práticas que ferem diretamente o Código de Ética do Psicólogo. O resultado sai em 30 dias. De minha parte, aguardo pela cassação de sua licença. Mais sobre o caso aqui: Por promover “terapias de conversão”, Marisa Lobo será julgada por Conselho nesta sexta-feira.

Jornal Nacional denuncia descaso com usuários de CAPS

Em reportagem do dia 22 de fevereiro, o Jornal Nacional denunciou o completo descaso com pacientes psiquiátricos, submetidos a condições degradantes no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Campos, no norte do estado do Rio de Janeiro: Pacientes são amontoados em corredores de centro psiquiátrico. Vale lembrar que os CAPS foram criados justamente para evitar ao máximo a internação em manicômios e humanizar o tratamento a pessoas diagnosticadas com problemas mentais. As imagens mostradas na reportagem revelam, porém, que de nada adianta um bom modelo de assistência em saúde mental sem o real engajamento do poder público.

Rivotril vira febre em Minas Gerais

Reportagem publicada em janeiro no jornal Estado de Minas alerta para uma situação que já está virando caso de saúde pública: o consumo exagerado de Rivotril em certos municípios do estado. Como se vê, a explosão no consumo do medicamento verificada nos últimos anos começa a preocupar as autoridades médicas, em vista dos riscos sempre presentes da tarja preta produzir dependência e efeitos colaterais. Especula-se que um fator importante neste fenômeno é a crescente incapacidade das pessoas em lidar com as próprias tristezas e frustrações e sua crença no poder mágico das drogas psicoativas em geral – a exemplo do Rivotril, prescrito em quadros de ansiedade, insônia e outros sintomas depressivos. (A psicanalista Rita de Cássia explora essa ideia aqui.) A reportagem pode ser lida neste link.

Duas felizes reportagens exibidas no Fantástico

O Fantástico deste domingo, dia 10, exibiu duas reportagens sobre saúde mental surpreendentemente boas.

A primeira delas foi até a Holanda para falar de uma nova modalidade de tratamento psiquiátrico na qual os cuidadores convivem com seus pacientes numa espécie de vila. Para quem olha de fora, aquela é uma vila perfeitamente comum. E, de fato, lá não se vê qualquer vestígio do violento modelo disciplinar que presidiu o funcionamento dos antigos hospícios e asilos – e que os assemelhava a verdadeiras prisões, como Goffman mostrou. A proposta da Hogewey Village é fazer com que as pessoas portadoras de Alzheimer que ali habitam sintam-se em casa, totalmente à vontade, enquanto médicos, enfermeiros e assistentes sociais – embora sempre prontos para entrar em ação, quando necessário – agem na maior parte do tempo como simples comerciantes locais, trabalhadores ou vizinhos. Em vez de impor aos pacientes a rigorosa padronização da rotina, o confinamento, o ócio, o isolamento social, a alienação dos laços afetivos, a tutela infantilizadora e a dinâmica terrivelmente homogeneizante da instituição manicomial, a iniciativa holandesa valoriza a individualidade, a liberdade, a autonomia, a reinserção social e afetiva e o incentivo à prática de atividades diversas. Tudo isso reflete a inabalável convicção, expressa pela diretora do centro, de que o respeito à dignidade humana deve vir em primeiro lugar, independentemente da condição médica de cada um.
Eis o link: Pacientes com Alzheimer levam vida normal em vila de tratamento.

[Atualização] Uma amiga minha contestou de modo bastante convincente as premissas éticas que orientam a clínica holandesa. Ela a comparou com o filme O Show de Truman, no qual o protagonista (Jim Carrey) descobre que é, desde o nascimento, a estrela de um enorme reality show sobre a sua vida e que, na realidade, todos aqueles com quem já cruzou são atores contratados para dar vida ao programa. De fato, a crítica de minha amiga nos faz indagar se é correto enganar as pessoas doentes dessa forma, montando um cenário em que profissionais de Saúde disfarçados simulam para seus pacientes o sonho de uma vida normal e autônoma. Ela questiona como pode existir ética numa clínica cuja premissa, ao que parece, é iludir os pacientes, ocultando deles o fato mesmo de estarem sob tratamento. Infelizmente, a reportagem não fornece informações mais detalhadas quanto a esse ponto decisivo.

A segunda reportagem abordou com sobriedade o tão debatido tema do TDAH, contrastando a situação de duas pessoas: 1) um sujeito já adulto que recebeu este diagnóstico, passou a tomar a medicação controlada, realizou modificações em seus hábitos diários e obteve resultados positivos; 2) um menino de 8 ou 10 anos que ia mal na escola, recebeu o mesmo diagnóstico e experimentou os vários efeitos colaterais da tarja preta sem êxito, até a mãe frustrada consultar um outro especialista e descobrir que seu filho era perfeitamente saudável – só havia tido uma pré-escola fraca em anos anteriores. Apesar de afirmar a realidade neurológica do TDAH, a matéria soube moderar dando voz ao psicanalista Christian Dunker (USP), que denunciou a onda crescente de medicamentalização da infância e criticou a exigência insana de desempenho  posta sobre as crianças em idade escolar – a cobrança de “qualidade total” da mercadoria, no dizer de Arnaldo Jabor. Outro mérito da matéria é que, no primeiro caso, o próprio Drauzio Varella relativizou o papel dos medicamentos ressaltando a importância do indivíduo criar novos hábitos e contar com um acompanhamento psicoterápico para o sucesso do tratamento.
Eis o link: Drauzio explica TDAH e mostra como superar as dificuldades do transtorno.

Bola dentro do Fantástico desta vez!

Acusada de plágio autora de best-sellers ‘Mentes Perigosas’, ‘Mentes Inquietas’ e outros

Corações DescontroladosEstá sendo acusada de plágio a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora de inúmeros best-sellers das livrarias brasileiras – dentre eles: Mentes Perigosas (sobre a Psicopatia), Mentes Inquietas (sobre o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, ou TDAH), Corações Descontrolados (sobre o Transtorno de Personalidade Borderline) e outros. As graves acusações partem de dois outros psiquiatras, que identificaram trechos inteiros de suas obras reproduzidos, quase sem modificações, nos livros de Ana Beatriz.

Mentes Ansiosas

Esta, ao ser informada em novembro do ano passado da queixa de Ana Carolina Barcelos Cavalcante Vieira, que trabalhara como pesquisadora em sua clínica, providenciou junto à editora uma segunda tiragem do livro Corações Descontrolados. Mas tudo o que fez foi mascarar as passagens plagiadas, sem sequer incluir uma notificação os leitores. Um mês antes, Tito Paes de Barros Neto conseguiu na justiça que fosse suspensa a comercialização do livro Mentes Ansiosas (2011), em vistas das flagrantes semelhanças com um livro do médico publicado uma década antes. A matéria da Folha fornece os detalhes adicionais.

Mentes Perigosas

De minha parte, a notícia só corrobora as várias reservas que eu já tinha com relação a Ana Beatriz. É opinião comum a inúmeros professores e amigos meus da área de Psicologia que os livros dessa mulher contribuem para uma compreensão deturpada dos transtornos mentais e reforçam a mentalidade de senso comum acerca dos mesmos, em vez de estimular a reflexão crítica e a quebra dos estigmas. Sem dúvida, é essa afinidade com as visões internalizadas no senso comum sobre a doença mental que constitui o verdadeiro chamariz das obras de Ana Beatriz e garante a ela um enorme número de vendas. A autora promove uma banalização do diagnóstico médico, pois passa a ilusão que qualquer um que tenha lido um livro seu se torna apto a apontar a existência de um transtorno mental em outra pessoa. E promove também uma visão fortemente individualizadora dos quadros clínicos retratados.

Somando a isso as acusações de plágio, a lição que fica é o dever de buscar informação sobre assuntos da Psicologia e da Psiquiatria em fontes séries e isentas, mais preocupadas com o rigor científico do que com fórmulas simplificadoras e sucesso comercial. Não custa lembrar que o cuidado deve ser redobrado numa sociedade que lucra em cima da ignorância e da desinformação sobre as patologias de ordem mental.