A libido na doença orgânica, segundo Freud

“No que tange à doença orgânica, seguirei a sugestão verbal de S. Ferenczi de que devemos levar em conta a influência da enfermidade orgânica sobre a distribuição da libido. Todos sabemos e consideramos natural que o sujeito atormentado por uma dor orgânica e por incômodos diversos deixe de se interessar pelas coisas do mundo exterior que não digam respeito ao seu sofrimento. Uma observação mais acurada nos mostra que ele também recolhe seu interesse libidinal dos objetos de amor e que, enquanto estiver sofrendo, deixará de amar. Apesar da banalidade desse fato, não devemos deixar de traduzi-lo para os termos próprios da teoria da libido. Diríamos então: o doente recolhe seus investimentos libidinais para o Eu e torna a enviá-los depois da cura. “A alma inteira encontra-se recolhida na estreita cavidade do molar”, diz W. Busch sobre o poeta que sofre de dor de dente. Nesse caso, tanto a libido quanto o interesse do Eu têm o mesmo destino e são, mais uma vez, indiferenciáveis entre si. O tão conhecido egoísmo do doente abarca ambos. As pessoas acham esse egoísmo natural, porque sabem que em situação semelhante se comportariam da mesma forma. Essa expulsão da outrora tão intensa disposição amorosa devido ao afluxo de incômodas sensações corporais e a substituição repentina dessa disposição por uma completa indiferença têm sido amiúde exploradas como fontes de comicidade na literatura.”

Extrato de:

FREUD, Sigmund. À guisa de introdução ao narcisismo. In: Estudos Sobre a Psicologia do Inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 2004. p. 103-104.

Virginia Woolf: “Sobre o estar doente”

Destaco abaixo o primeiro parágrafo de um ensaio de Virginia Woolf intitulado “Sobre o estar doente”, onde a grande escritora inglesa faz um elogio da doença como um tema digno da prosa literária.

Considere quão comum a doença é, quão tremenda a mudança espiritual que traz, quão espantosas – quando as luzes da saúde se apagam – as regiões por descobrir que são então reveladas, que extensões desoladas e desertos da alma uma ligeira gripe deixa à vista, que precipícios e relvados pontilhados de flores brilhantes uma pequena subida de temperatura descortina, que antigos e rijos carvalhos são desenraizados em nós pela ação da doença, como nos afundamos no poço da morte e sentimos as águas da aniquilação fecharem-se sobre nossas cabeças e acordamos julgando estar na presença de anjos e harpistas quando arrancamos um dente, e voltamos à superfície na cadeira do dentista e confundimos seu “bocheche… bocheche…” com as saudações de uma divindade debruçada no chão do céu para nos dar as boas-vindas. – Quando pensamos nisso, como tantas vezes somos forçados a pensar, torna-se realmente estranho que a doença não tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, a guerra e o ciúme, entre os temas primordiais da literatura. [fonte, com revisões minhas; citação no original]

Documentário: “O Riso dos Outros”

Aproveitando as discussões que tivemos na última aula do curso, publico aqui este documentário que questiona em que medida o humor pode perpetuar a violência simbólica contra minorias historicamente oprimidas – como negros, mulheres, gays e tantos outros. Ele revela, desse modo, como o humor possui uma dimensão política e como “uma simples piada” contribui de forma velada para a manutenção e a disseminação de certos valores e de certa ordem social.

Sinopse: Existem limites para o humor? O que é o humor politicamente incorreto? Uma piada tem o poder de ofender? São essas questões que O Riso dos Outros discute a partir de entrevistas com personalidades como os humoristas Danilo Gentili e Rafinha Bastos, o cartunista Laerte e o deputado federal Jean Wyllys, entre outros. O documentário mergulha no mundo do stand up comedy para discutir esse limite tênue entre a comédia e a ofensa, entre o legal e aquilo que gera intermináveis discussões judiciais. O filme foi dirigido por Pedro Arantes, diretor de séries de humor como “As Olívias”, do canal Multishow, e “Vida de Estagiário”, da TV Brasil.

Link para entrevista com o diretor na Revista Trip que esclarece alguns pontos importantes no documentário:  Tá rindo de quê?