A libido na doença orgânica, segundo Freud

“No que tange à doença orgânica, seguirei a sugestão verbal de S. Ferenczi de que devemos levar em conta a influência da enfermidade orgânica sobre a distribuição da libido. Todos sabemos e consideramos natural que o sujeito atormentado por uma dor orgânica e por incômodos diversos deixe de se interessar pelas coisas do mundo exterior que não digam respeito ao seu sofrimento. Uma observação mais acurada nos mostra que ele também recolhe seu interesse libidinal dos objetos de amor e que, enquanto estiver sofrendo, deixará de amar. Apesar da banalidade desse fato, não devemos deixar de traduzi-lo para os termos próprios da teoria da libido. Diríamos então: o doente recolhe seus investimentos libidinais para o Eu e torna a enviá-los depois da cura. “A alma inteira encontra-se recolhida na estreita cavidade do molar”, diz W. Busch sobre o poeta que sofre de dor de dente. Nesse caso, tanto a libido quanto o interesse do Eu têm o mesmo destino e são, mais uma vez, indiferenciáveis entre si. O tão conhecido egoísmo do doente abarca ambos. As pessoas acham esse egoísmo natural, porque sabem que em situação semelhante se comportariam da mesma forma. Essa expulsão da outrora tão intensa disposição amorosa devido ao afluxo de incômodas sensações corporais e a substituição repentina dessa disposição por uma completa indiferença têm sido amiúde exploradas como fontes de comicidade na literatura.”

Extrato de:

FREUD, Sigmund. À guisa de introdução ao narcisismo. In: Estudos Sobre a Psicologia do Inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 2004. p. 103-104.

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