“Nada contra”: Reflexões sobre homofobia

Acabo de ler um textinho sobre homofobia absolutamente brilhante. O genial consiste no fato dele inverter o discurso típico dirigido contra os homossexuais e explicitar que é a própria homofobia que deveria ser motivo de vergonha. Destaco abaixo o primeiro parágrafo, que já dá o tom do texto de Aline Valek:

Não tenho nada contra homofóbicos. Eu, inclusive, tenho muitos amigos que são. O problema é que tem uns homofóbicos escandalosos, que não conseguem ser discretos. Ficam dando pinta que não gostam de gay, sabe? Tudo bem ser uma pessoa rancorosa e preconceituosa, mas não em público. Entre quatro paredes e bem longe de mim, tudo bem. Nada contra mesmo.

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Entrevista com Rita de Cássia Almeida: “Permissão para ser infeliz”

Em sua coluna na Revista Época desta semana, a jornalista Eliane Brum conversa com a psicóloga Rita de Cássia de Araújo Almeida, que trabalha há 10 anos em Centros de Atenção Psicossocial, sobre como vivemos hoje em dia sob uma “ditadura da felicidade” e já não nos autorizamos a experimentar sentimentos negativos. Isso, no entanto, só nos faz sofrer ainda mais. É nesse contexto que o papel do psicólogo consiste, muitas vezes, em permitir ao paciente vivenciar sua infelicidade sem se envergonhar. “Estamos nos tornando uma geração de humanos que teme sua própria humanidade”, diz Rita. Trata-se de uma entrevista muito inspirada, na qual se discutem questões atualíssimas. Imperdível.

Artigo do Estadão: “O ano da neurocascata”

O número de pessoas deslumbradas com as promessas das chamadas neurociências é cada vez maior. Porém, é preciso ter claro que, sob esse rótulo, reúnem-se coisas de qualidade muito variável, desde as mais sérias pesquisas científicas aos mais risíveis oportunismos. É o que aponta Sérgio Augusto, colunista do Estadão, neste artigo divertido e irônico publicado em 30 de dezembro. O autor afirma categoricamente:

(…) a neurociência virou o século submetida a abusivas simplificações e aplicações levianas. Vulgarizada para consumo e consolo das massas, a neurociência pop tornou-se uma pestilência intelectual, um engana-trouxa de jaleco a oferecer ensinamentos, no mínimo, discutíveis sobre certas funções orgânicas e processos mentais, e soluções para uma infinidade de problemas – dos cognitivos aos emocionais, dos políticos aos econômicos.

O atentado de Newtown: reflexões sobre doença mental

O terrível atentado na escola primária Sandy Hook, em Newtown, ocorrido no dia 14 de dezembro – e que levou à morte de 20 crianças e 6 adultos, vítimas de um jovem armado com um fuzil – desencadeou um novo debate nos Estados Unidos sobre violência, porte de armas e assuntos afins. Alguns legisladores chegaram a apresentar projetos de lei para permitir que professores e funcionários possam andar armados dentro das escolas (leia mais aqui). Como um amigo meu muito bem colocou, essas propostas insanas não são senão o reflexo de uma sociedade doente de medo. Felizmente, há americanos suficientemente lúcidos para perceber que os intermitentes atentados em instituições de ensino dos EUA não serão prevenidos facilitando-se ainda mais o acesso a armas de fogo. Na verdade, o buraco é mais embaixo: trata-se, dentre outras coisas, de debater seriamente a questão da saúde mental e dos serviços a ela voltados. É o que argumenta Lisa Long neste artigo para o The Blue Review, Eu sou a mãe de Adam Lanza (texto original, em inglês, aqui), do qual eu colhi uma passagem que merece atenção especial:

Na esteira de outra horrenda tragédia nacional, é fácil falar sobre armas. Mas é hora de falarmos sobre doença mental. (…) Não creio que meu filho seja caso de cadeia. Mas parece que os Estados Unidos estão usando a prisão como solução para pessoas mentalmente doentes. De acordo com o Human Rights Watch, o número de doentes mentais nas prisões dos EUA quadruplicou de 2000 a 2006, e continua a aumentar. Na verdade, o índice de doentes mentais entre o contingente encarcerado é de 56%, cinco vezes maior que na população fora das celas.

O fato é que nossa sociedade, com seu estigma contra a doença mental e seu sistema de saúde falido, não nos fornece outras opções. Enquanto isso, é capaz que outra alma atormentada dispare, talvez num restaurante fast food. Talvez num shopping. Numa classe do jardim de infância. E nós novamente vamos torcer as mãos e dizer “Algo precisa ser feito.” [tradução minha, livremente adaptada]